segunda-feira, setembro 29, 2008

Do alto de uma figueira convido a castanha urbana


Como é bom sentir o gosto do alto do meu cheiro preferido; degusto figos pelos poros.


Gosto tanto da figueira a ponto de desejar ser o fruto maduro e cair; despenco do ápice do tronco, e do chão não passo. Estatelada com as entranhas expostas, sou. Sou figo maduro.


Tantas vezes me desesperei do fato humano; quantas tardes derramei pranto. Aforismos lacrimosos-femininos-masculinos regaram minha raiz e regojizaram no meu regaço.


Tive medo. Folhas ainda verdes congelei. Guardei minha figueira numa redoma de vidro para que só eu pudesse sentir a doce fragância. Medo de roubarem minha primavera, medo de que minhas folhas carnívoras devorem e cuspam estilhaços de gente.


Penso em abrir a porta lacrada de transparência, recuo. Deixo sair gases de odor, recolho.


Será que sou egoísta? Somos todos. Mas será que eu deveria compartilhar a minha natureza e permitir que este cheiro que penetra a alma possa viver ao ar livre?


Dói saber que sendo figueira não posso ser a minha própria jardineira. E como irragarei as pernas submersas em terra?


Calma! Minha racionalidade trancou a porta da redoma com braços-verdes-escuros-cascas-escamas. Tento fazer furos para que seu sopro de vida possa entrar. Tenho medo!


Arrisco!


Dormirei inundada de perfume fora do bloco; poderei sentir o prazer de te encher de perfume e, fazer de ti o fruto saboroso; degustar-te-ei.


Convido-te então a prática da jardinagem, brincar e dormir ao pé da minha figueira, ser também figo.


Se alguma infelicidade infortúnia decorrer desta experiência sensorial, posso apenas lamentar.


Mas convicta afirmo: não me tragam figos em calda, pois não sei respirar o artificial!






terça-feira, setembro 23, 2008

Aflição

Estou aflita, como estou aflita. Qualquer ação que venhas a fazer, torna-te devedora. E como pagar esta dívida se não existe promissória? Sim, serás devedor até o fim de suas ações. Talvez não deveríamos adquirir coisas que não possamos pagar; mas como fugir do pensamento burocrático que te cria dívidas e cobra-te, e te falsifica, classifica?

"O suicídio é uma solução? Se é, e há quem defenda que é, não me interessa. Só o problema é interessante, nunca a solução; e o ser humano, ou o que dele resta, tem que ser capaz de viver com a insolubilidade da própria vida"
(João César Monteiro, filme Vai e Vem, 2002).

quinta-feira, junho 05, 2008

Medusa assaltada


Uma enorme ansiedade permeia agora as minhocas do me cabelo de Medusa. Cabelos que dão forma a esta minha beleza sem sentido, que conquistam as pessoas sem a menor intenção de assim o ser. Quando quero conquistar, não consigo e sou a pura frustração.
Estou ansiosa por algo que venho cativando ao longo das horas, das conversas e das posturas. Tenho medo de ser mais fútil do que eu pensava em ser um dia. Tenho medo da contradição que acompanha meus passos, que finca a marca no cimento úmido com a impressão digital dos meus sapatos.
Mais uma vez comprovo que sou pequena, porque tenho medo, porque sou contraditória, porque sou humana. Queria ser heroína, ou como disse outro dia a um amigo, queria ser uma deusa do olímpo, onde é permitido ser humano, e os erros desta estúpida espécie, são compensados pela divindade da filiação de Zeus. Queria ser Dionísio, queria. Me embriagar nos ditirambos, juntamente das minhas companheiras bacantes, e no dia seguinte, poder ser o que que quiser, sem ter que ser humana, sem ser contraditória.
Acho que meu maior medo é esse, o da contradição. Tenho meus ideais sobre a condução da vida, mas talvez os interprete mal quando os pratico. Ou pratico de forma mais coerente do que meus próprios ideias.

Fui roubada. Me assaltaram as minhocas da cabeleira. Dois assaltantes diferentes me roubaram um gosto, um sabor. Num dos casos fiquei assustada por não esperar e relutei. No outro caso, esperava, portanto entreguei meu tesouro ao ladrão, e a adrenalina só é boa quando não se espera. Agora, anseio que o terceiro destes furtantes do amor roube tudo o que eu tenho, que me deixe nua, na rua escura e deserta, mas além de tudo me deixe uma lembrança do gosto de uma saliva que eu já sei o sabor e quero de novo, como eu quero. Outro dia ele me comunicou que pode ser que me assalte, quis até marcar hora e local, mas nunca disse que iria me assltar; talvez queira apenas alguma coisa emprestada.
Agora ando na rua com todas as minhas coisas a vista para quem sabe possa ser roubada novamente e que me leve tudo, tudo.

E ainda há o outro caso, o mais intrigante de todos confesso. Quero fazer as vias do ladrão, quero que todas as minhas minhocas criem braços e mãos múltiplas e assim, roubar tudo o que eu posso. Mas tenho medo, talvez aquele pudorzinho de roubar um livro na livraria e ter medo de ser descoberto, e que mais do que ter que devolver o livro, passar a vergonha de um assaltante de propriedades privadas. Quem sabe o desejo e a vontade de ler estes versos não compensem todos estes riscos infortúnios e que possa pelo menos por uma noite, ser a poesia.

terça-feira, junho 03, 2008

Cotidiano violento na pastelaria


Seis horas da manhã. O despertador impunemente grita. É hora de acordar. É hora de sair dos lençóis da cama de solteiro e se vestir para mais uma jornada, para mais um dia como todos os outros que se passaram. Alice não sabe mais como suportar essa degradante coisa que é o seu próprio cotidiano, mas suporta, pois já não tem mais forças para tomar uma atitude.

Quantos anos já não levava aquela vida, trabalho casa, casa trabalho. Todos os dias faz a mesma coisa, acorda, toma seu banho frio, se veste e sai em direção à pastelaria onde de segunda à sábado ela entra, abre a porta com as chaves que seu chefe lhe confiou, lava o chão, limpa os banheiros, prepara todos os doces e salgados nas vitrines, liga a máquina de café e faz diversas outras atividades, todas elas da mesma forma que já faz há 10 anos, antes de abrir a porta para os clientes, que já as oito da manhã começam a chegar.

As oito chega o primeiro cliente. O Senhor Joaquim Antunes, que já há muitos anos, antes mesmo de Alice ser contratada para a pastelaria Sonho de Verão é sempre o primeiro cliente. Ele entra com seu jornal do dia anterior, pede uma bica cheia e um pastel de natas e senta na mesa do fundo à direita. Fica ali das oito, até as nove, se despede de Alice e vai embora.

Depois começam a chegar os outros clientes, são trabalhadores da região, são estudantes que moram perto, são as senhoras e senhores já aposentados que vão se encontrar na pastelaria e tomar o pequeno almoço juntos.

O dia vai passando, os salgados vão chegando ao fim, os doces das vitrines passam de apetitosos a velhos, os cafés passam a ser descafeinados e Alice, esta mulher apática não passa nada, nunca passou e não seria agora que aconteceria esta reviravolta.

Volta pra casa abatida, desesperada da vida, para se preparar para mais um dia de pastelaria.
Que inferno de vida!

segunda-feira, março 31, 2008

Solidão cotidiana

Sinto-me só, dentro de uma banheira branca, onde a espuma do sabão jorra por meus dedos apertados como numa erecção. Escorre gozo pelo meu corpo todo. E eu me excito, eu me masturbo e eu me concentro. Grito; grito solitário, grito seco.
Sinto-me mole, levanto-me com disposição de quem acaba de viver um acontecimento feliz. Penteei meus curtos fios cabelo; pinto os olhos; visto a roupa do baile de sábado e saio à rua de óculos de sol em busca de um passeio contente.
Na primeira quadra me alimento de porcarias, na segunda sinto-me a dona do mundo, na terceira chove e volto. Compro o jornal para sentir-me inteligente, sento-me no café para sentir-me social. Alguns minutos depois já estou em casa no sofá.
Vejo um filme triste e choro. E a vida passa num filme como no dia da morte, e já não choro mais pelo romance, mas por entre a minha vida. E passa. Recomponho-me, choro de novo; agora lágrimas secas. Ali permaneço imóvel como estátua de pedra escura, e sinto-me tão só, mas tão só.
Saio de casa, sirvo bebidas às pessoas; vejo-as embriagarem-se com meus olhos sóbrios de uma profissional. Tenho vergonha, por ter um dia ter sido bêbada de futilidades, tenho inveja por náo estar feliz como aquelas pessoas.
Volto pra casa cansada. Tento ainda me divertir em alguma discoteca, sinto-me extraterrestre, desisto.
E cá estou a vomitar, sozinha!

segunda-feira, setembro 24, 2007

De volta para Lisboa


Quinze dias se passaram aqui no Brasil

Quinze dias de muitas emoções

Quinze dias de pouco tempo.


Logo que cheguei confesso grande decepção

Meu país, aquele em que me criei e fui criada

Me pareceu um caos, muita gente, muita coisa


E os dias foram passando

As pessoas foram aparecendo

E fui novamente acostumando

Com aquela vida de sempre


Agora é hora de voltar

Para a cidade que agora criei pra mim

E que também me cria

Estou de volta


Lisboa, estou de volta

Brasil, mais uma vez de partida


Daqui pra frente, é viver e ver


quinta-feira, setembro 13, 2007

Lisboa-São Paulo, um ano depois











O avião se lança do Tejo em direção à Av. Paulista
Muitas horas de ansiedade pela chegada e dez horas de saudades da partida.
Minha cabeça turbilha, turbilha. Até que pouso.
A minha espera estão aqueles que sempre estarão
Eu, a espera de não sei o que.

Deito naquela cama que por muitos anos sonhei com tudo o que vivo agora
Desta vez sonho com aquilo que deixei no além-mar
Aqui, é hora de fazer o balanço de um ano.
Lá, a minha espera toda uma vida de realizações ainda por vir.

Quando molhei meus pés no Tejo, passei todo um ano
A explicar o porquê de lá ter fincado meus pés
Aqui, explico
O que fiz nesse um ano de banhos, conto histórias
A vida aqui está mais cara
O trânsito piorou, a qualidade do ar virou tosse crônica
E não tenho saudades dessa minha terra tão amada
Não tenho

Tenho é saudades da minha casa, daquela que eu construi
Com meus próprios tijolos, alguns mais duros que outros
Mas essa minha casa é móvel
Carrego onde quer que ande, onde quer que eu vá

Amei, desamei, fui amada e desamada
Agora aproveito a boa companhia que cá tenho
Estou sempre a espera,
Só que agora a de voltar para um lugar que se faz meu
De continuar a viver o meu sonho de menina
Que se concretiza feliz e duramente

Amo viver, mas amo mais é estar feliz
E sou feliz pela escolha do Tejo, sou
Daqui uns anos talvez volte a caminhar pela Paulista
Agora, só quero andar pelas Sete colinas












quinta-feira, março 29, 2007

primavera


Quantas são as folhas que vão nascer agora, quantos são os galhos que deixarão sua nudez e magreza para uma nova forma e cor? Quantos novos cheiros invadirão nossos sentidos e poros? Quantos graus de raios solares entrarão nas nossas janelas e iluminarão as nossas tardes?

E quanto a mim? De onde virão as minhas flores? Serão elas tão coloridas quanto a primavera ou serão tão verdes quanto a clorofila? Será mesmo um ciclo? Não vão elas daqui mais alguns meses cair e me deixar completamente nua novamente? Provavelmente que sim...
Tomara que eu consiga pelo menos manter as raízes em pé para que na próxima primavera as flores nasçam cada vez mais coloridas e os frutos possam amuderecer e cair no chão, sem que ninguém os arranque precipitadamente.

Que venha a PRIMAVERA!!!!!

terça-feira, março 13, 2007

Cronica da casa assassinada - Lucio Cardoso


"Por mais que viva, jamais poderei esquecer a sensacao transmitida pela forma dos seus seios entre minhas maos, da garganta macia onde meus labios passeavam, do perfume quente, adocicado, que se desprendia dela, como de um canteiro de violetas machucadas. Ah, e nem posso diozer que nao tremesse e nao suasse ante a extensao do meu pecado, pois repetindo mil e mil vezes que afagava e mordia a carne que me concebera, ao mesmo tempo encnotrava nisto um prazer estranho e mortal, e era como se debrucasse sobre mim mesmo, e tendo sido o mais solitario dos seres, agora me desfizesse sobre um enredado de perfume e de nervos que era eu mesmo, minha imagem mais fiel, minha consciencia e meu inferno.
Docemente escorreguei a mao ao longo do seu tronco, sentindo encrespar-se a macieza de sua pele - e como se fosse um caminho sabido de ha muito, e ali devese desaguar, unidas, as dissonancias do mundo, coloquei-a sobre seu sexo, que palpitou a esse contato como uma ventosa de la. Ela estremeceu, ondulou como a chegada de um espasmo - e sob meus dedos que se faziam mais duros, e mais precisos no seu afago, senti abrir-se aquela flor oculta, e desnudar-se o misterio de sua natureza, exposta e franca, como uma boca que dissesse, nao o seu nome, mas o nome do seu convite. Subia mao, voltei a afagar-lhe o talhe, dobrei-a, venci-a ao poder do meu carinho - e afinal como um grito rompeu-se o encanto e entreabriu-se a fenda escura e vermelha daquele corpo, num riso tao moco e tao vibratil que atraves dele parecia ressoar toda a musica existente.
Dizer que a amei, sera dizer pouco; deixando-me absorver, tentei absorve-la e dessa fusao retirei minha primeira nocao do amor, do seu abismo. Quantas vezes a amei, sera dificil dizer, tanto misturei o ama-la com o transporte que me comovia. Incentivava-me o ser sacrilego, imaginando uma afronta as leis humanas e divinas, deliciava-me em estreita-la contra mim, em machucar-lhe os seios, em morde-los, reiventando o gosto de ser crianca, e imaginando a vida estreita e funda, hoje minha, que independente de mim, a este mundo me havia conduzido.
Eu, nos mesmos, que outro delirio maior do que o dessas carnes sofregas que se uniam, e criavam temporadas extras em seus desvios de amor?"

Lucio Cardoso, in Cronica da Casa assassinada

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

2 aninhos


No dia 12 de fevereiro, a crianca mais linda do mundo fez 2 anos.

PARABENS!!!!!

Te amo

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Quem canta pra quem?


Vambora

Adriana Calcanhotto


Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem Vambora
Que o que você demora
É o tempo que leva
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda têm você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite Veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda têm você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Escrita feminina


"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntas, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreberta: elas respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água delas. Andavam por ruas e ruas, falando e rindo, assim davam peso a levíssima embriaguez que era a alegria da sede delas. A boca ia ficando mais seca de admiração. Como admiravam estar juntas.
Até quando tudo se transformou em não. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ela procurava e não sabia e ela não via que ela via a tudo. E no entanto as duas não estavam, mas ali estavam. Tudo errou e ainda havia a poeira das ruas. Quanto mais se distanciavam com mais aspereza se tinham uma a outra. Sem um sorriso. E tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídas... só porque de súbito se punham na tolice do medo precipitado. Estavam exigentes e duras. Tudo porque agora era tarde e já eram tudo o que um dia quiseram ser. Foram então aprender que não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso dormir fora para que a carta chegue. E quando o telefone finalmente toca, o desejo da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraidas...."

" Debruça-te sobre a tua casa e a tua mulher. Pergunta no mais profundo de ti, no teu abismo, se é maior teu espaço de amor ou maiores os medos, esses rigores, a ti te proibindo. Tua amiga incorporada ao teu próprio destino. Não cabe medida quando se trata de desejo e amor. Dessa coisa incontida que é o amor. O coração amante se dilata. O preconceito? Um punhadinho de sal num mar de nós duas"

"Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é verdade que nunca me soubeste?"


Diana Tavares, Clarice Lispector e Hilda Hilst (não necessariamente nesta ordem)

terça-feira, janeiro 02, 2007

Viver não dói


"Definitivo, como tudo que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por que?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows, livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A reposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, na força que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional"

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, janeiro 01, 2007

A vida começa onde termina

2006 - Foi um ano onde aconteceram tantas coisas na minha vida, e acabou que foi muita coisa para um ano só. No balanço geral, mais coisas positivas do que negativas, ainda bem...
2007 - Espero que seja um ano mais calmo...embora meu ritmo seja sempre veloz.
Desejos - Sabe quando entra o ano e você pensa o que quer que aconteça de verdade, de real? Pois bem, já tenho a minha meta: conhecer pessoas inteligentes, sensíveis e verdadeiras. As que já conheço pretendo manter na minha vida. E o resto..... bem, o resto vem com o vento, o grande semeador.

Feliz ano novo!!!

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Atiraste uma pedra


"Atiraste uma pedra
No peito de quem só te fez tanto bem
E quebraste um telhado
Perdeste um abrigo
Feriste um amigo
Conseguiste magoar
Quem das mágoas te livrou
Atiraste uma pedra
Com as mãos que essa boca
Tantas vezes beijou
Quebraste um telhado
Que nas noites de frio
Te servia de abrigo
Perdeste o amigo
Que os teus erros não viu
Que o teu pranto enxugou
Mas acima de tudo atiraste uma pedra
Turvando essa água
Essa água quem um dia por estranha ironia
Tua sede matou"

Doces Bárbaros

sábado, dezembro 23, 2006

A vida pesa


Sábado, um dia antes do Natal; Portugal, Lisboa, frio, solidão. A vida pesa, pesa alguns quilos a mais do que outrora. Meu corpo está magro e fino, está sujo e sem cor; minha cara pálida e séria.
A vida pesa.
Parece que estou dentro de um túnel escuro. Tenho a certeza, ou pelo menos a esperança de que existe uma luz no fim, mas o que mais me aflige é que eu não a vejo, não a consigo apalpar com os olhos. E isso vai me causando um corroer dos orgãos. É como a morte. Sabemos que ela existe, mas nunca sabemos nem podemos prever quando ela virá te buscar. Mesmo os mais aflitos que resolvem chegar até ela, mesmo eles, não sabem o seu preciso momento. É um estágio que não se passa, atravessa.
Sei que a vida vai se tornar mais leve, mas não consigo nem prever nem antecipar este momento. E as vezes dá esta angústia de querer que chegue logo. É como quando crianças, esperamos o papai noel, sabemos que ele vem, mas nunca chega. Acontece que eu sei qual é o setimento de quando ele chega, essa é a diferença. Ainda estou dentro do túnel e por isso não sei o sentimento de encontrar a luz, mas estou ansiosa por ele.
Isso pode ser visto como um ponto positivo para a minha caminhada, o fato de sentir que a vida vai se tornar mais leve, mas o fato de não sabermos quando este dia chegará é um sentimento absolutamente inexplicável de tão forte e intenso. E isso faz com que o fato de sabermos que há uma luz seja absolutamente irrelevante, isso significa que aquele ponto positivo que acabei de ganhar no início do parágrafo seja retirado da minha caderneta.
A vida é mesmo infantil. Tudo o que vivemos na infância, desde a espera do papai noel até a vida sendo controlada por pontos positivos e negativos, tudo isso faz parte de toda a vida. E assim crescemos e temos os mesmo problemas, com uma grande diferença, quando se é criança, pode cair o mundo, mas a vida nunca, nunca vai pesar.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

O amor não é cego....


Confesso que durante estas tardes-noites que tenho passado, muita coisa tem entrado e saido da minha cabeça, muita coisa mesmo, que ela chega a fever em alguns momentos.
Nestes dias tenho visto e revisto alguns sentimentos e paixões. Talvez todo esse choque que vivo agora, tudo isso, entre desamores, solidão, saudade, impotência, medo, resume-se em uma palavra: falta. Estou vivendo o choque da pura falta. E por conta disso, vou ficando mais fria, mais dura, menos romantica, menos jovem, resumindo-se em: mais falta.
É por isso que cada vez mais o Artaud faz mais sentido pra mim, assim como quem me ensinou a gostar de Artaud. É que a luta dele pela sobrevivência começa a fazer agora eco. É mesmo duro sobreviver com tantas faltas de liberdade. O juizo de Deus esta realmente instaurado. O egoismo tornou-se um sentimento inato. E viver contra tudo isso é ser louco, é estar louco.
O corpo sem orgãos faz-se mais necessario. Agora entendo realmente o que significa o esvaziamento, ele é por demais doloroso.
E ainda sim, ainda com todo este sofrimento, com todas estas dores e desilusões, ainda sim amar é a unica saida e caminho viavel para que esse novo corpo que se constrói possa ser atravessado pelas melhores intensidades.
Alguns dirão que eu tudo isso, é porque vivo uma desilusão amorosa, mas mais e mais vou percebendo que nao se trata disso, e se trata também disso. Mais e mais o cartesianismo me enjoa e enerva, porque ele é burro. Trata-se tão simples quanto complexamente da totalidade do corpo. Ele é um só e assim que ele deve ser tratado e cuidado, o bom e verdadeiro cuidado de si.
Salve Artaud!!!!!

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Salve Antonin Artaud


Preciso escrever alguma coisa para que ela saia do meu estômago. Poderia estar escrevendo em um papel e uma caneta, mas é impossível encontrar qualquer um destes objetos dentro do meu quarto. Minha vida está caótica.
Artaud sempre esteve certo em mostrar o que se passa no estômago. Minha cabeça não pára, mas meu estômago doi, literalmente doi. Não é dor de barriga que faz com que pelo menos alguma coisa saia, é a dor do músculo do estômago de tão entranhada que é.
O frio ajuda com que eu trema mais e mais, e o músculo as vezes acaba por não mais doer e se reduz a pó.
As vezes penso que isto poderia estar acontecendo no verão. Embora eu não goste muito de calor, confesso que sofrer no frio é um pouquinho mais desesperador. Sair e congelar, ficar em casa e congelar. O melhor é estar lá e cá, assim a cabeça não para de tão lenta, ou quebra de tão rápida.
Confesso que estou tentando ...... ir parar onde que eu ainda não sei, mas tenho medo. Engraçado que o lugar que eu me sinto melhor e mais protegida é debaixo do meu endredon, na minha cama, no meu caótico mundo-quarto. Pela primeira vez tenho medo e só tenho a mim, e a cama é a minha, não de nenhuma outra.
Talvez essa viagem toda - porque na verdade tudo isso é uma grande viagem, tenho toda certeza de que estou em uma - me sirva pra alguma coisa...
E o pior é que todas as pessoas dizem que isso vai ser bom pra aprender e que o sofrimento faz parte da vida. Pra todas estas pessoas eu só digo uma coisa: Vão se fuder!!!! Não desejo isso pra ninguém!!!! Hipócritas de merda!!!! Faz bem pro crescimento??? Então vem cá você sofrer!!!!Sociedade hipócrita e medíocre, a sociedade do anti-depressivo e do viagra, não necessáriamente nesta mesma ordem!!!!!

Salve Antonin Artuad!!!